sexta-feira, janeiro 26, 2007

Sala de Espera

A sala de espera é um conceito curioso. Porque é exactamente aquilo que o nome indica: a malta vai para uma sala e espera. Espera até que nos venham chamar. Não tem nada a ver com as salas de estar. Nas salas de estar podemos sempre optar por não estar, muito embora elas continuem a ser designadas por sala de estar. Nas salas de espera não há hipótese. Temos mesmo que esperar, caso contrário estas não fazem sentido. Nem sequer faz sentido nós esperarmos. É tudo muito esquisito, na realidade.
Como a malta, de um modo geral, não tem grande paciência para esperar, as salas de espera são uma verdadeira seca para a maior parte de nós. Mas não para mim. Gosto das salas de espera. Gosto de passar lá eternidades. São uma verdadeira fonte de inspiração.
Se estou à espera de uma consulta médica na sala de espera costumo olhar para a malta que espera comigo e imaginar que tipo de doenças eles terão. A experiência é muito mais rica dependendo da especialidade médica em questão: se estou no dentista olho para o gajo à minha frente e imagino o estado putrefacto das suas gengivas. Se estou no dermatologista imagino que o tipo deve passar umas noites tramadas a coçar-se que bem um animal. Se estou no oftalmologista consigo topá-lo a fazer um esforço para ler, incompreensivelmente por falta de visão, um relatório que determina que ele e toda a sua equipe serão despedidos no próximo mês. Se estou no gastroentologista consigo revê-lo a peidar-se tão abundantemente que toda aquela produção de gases daria lucro ao gás da Bolívia.
As salas de estar das empresas também são altamente produtivas: nelas vejo a secretária que é comida pelo patrão; a escriturária que tem fantasias sexuais com um marcador luminoso; o paquete rebarbado com a executiva; a executiva a querer dar para quem passa. Enfim, um verdadeiro ecossistema de javardice impronunciável.
Mas é nas salas de estar da Função Pública que a coisa atinge o nível do nirvana: não se passa nada. Nada mesmo. Até se tem alguma dificuldade em perceber se aqueles seres atrás do balcão têm funções respiratórias. É a sala de espera em todo o seu esplendor.

quinta-feira, janeiro 25, 2007

O milagre do crescimento.

Nota bene:
No Brasil, rombos, escombros, assombros e o desassossego crescem sem esforço algum. Nada é progresso onde Educação e Cultura mínguam.

Caixinhas

Desde que saíram da caverna, os seres humanos têm uma apetência natural para viverem em caixinhas. Todos os dias, saímos de dentro de uma caixa a que chamamos casa, entramos numa outra caixa a que chamamos automóvel e conduzimo-la até uma outra caixa a que chamamos emprego. Viajamos em caixas atreladas umas às outras que andam em cima de carris, em caixas que flutuam na água e até em caixas que voam. De vez em quando gostamos de ir dançar para dentro de caixas ruidosas, ou de passar um tempo com os amigos em caixas que têm como função servir substâncias líquidas mais ou menos entorpecentes e etilizantes. Há caixinhas para tudo e mais alguma coisa. São poucas as coisas que se fazem fora das caixinhas. Talvez por isso as férias constituam quase sempre um bom motivo para passar a maior parte do tempo fora das caixas, ou pelo menos em caixas diferentes das habituais.
A vida parece consistir numa sucessão de caixinhas em catadupa. Uma após outra. Já nem reparamos nelas. Fazem parte desta caixinha grande a que chamamos Terra e de onde conseguimos observar um conjunto de outras caixas grandes e distantes, questionando se existirão por lá outras caixinhas habitadas.
Até aqui, nesta fatia de internet, gostamos de nos arrumar em caixinhas. Reparem bem na forma deste blog…

domingo, janeiro 07, 2007

sexta-feira, janeiro 05, 2007

Entra ano, sai ano...

Eu continuo tentando descobrir como é possível alguém querer, ao mesmo tempo, proibir o comércio, punir o comerciante e eximir o consumidor da responsabilidade.

Se o traficante é um bandido, como é que aquele que o financia pode ser uma vítima? Se a prostituta é sem vergonha, seu cliente é o quê? Se o guarda-de-trânsito é corrupto, quem comete a infração e lhe oferece dinheiro é coitadinho? Se o fiscal tem o poder de punir, mas, em vez disso, oferece uma alternativa pouco honesta, aquele que já estava errado quando foi flagrado e ainda concorda com a oferta é santo?

Alguém trocou as velhas correntes que dividiam o certo e o errado por cordões de elástico, moderninhas, certamente, mais simpáticas, claro.

Daí vem esse mundo em que você tem de brigar por vinte anos para conseguir uma indenização na justiça, quando alguém viola um de seus direitos verdadeiros - nem digo mais legítimos, posto que há tanta gente legislando em causa própria que toda legitimidade pode, repentinamente, ser questionada pelo seu que de malandragem -, enquanto um criminoso notório pode alcançar os benefícios da Lei e sair da cadeia com dois terços da pena de antecedência. Tudo ao avesso.

O mundo é o espelho da gente. Governo, Justiça, Saúde... tudo: reflexo do caráter que se tem. Por isso é tudo corrupção.

Numa terra em que entre os mais pobres há quem seja contra leis mais firmes porque de antemão assume que somente os pobres serão punidos, sempre haverá o mais rico espertalhão para abrandá-las por ele, por si e contra todos; numa terra em que entre os menos cultos há uns contrários às regras mais rígidas porque de antemão afirmam que principalmente os incultos serão prejudicados, sempre existirão os espertalhões mais cultos para afrouxá-las por eles, por si e contra todos; nessa terra em que os sem-isso e os sem-aquilo são tantos que conquistam privilégios, benefícios e direitos, quem vai correr o risco de ser acusado de preconceito, racismo, autoritarismo, por perseguir os sem-vergonha?

Nem indignação nos resta; é fato consumado. Gozemos.